Ecos da Amazônia
A ação climática impulsionada pelos povos da floresta no Acre, Brasil
O calor chega cedo agora. No meio da manhã, a floresta já parece estar prendendo a respiração. A Reserva Extrativista Chico Mendes, no estado do Acre, é uma das primeiras reservas extrativistas criadas no Brasil, cobrindo quase um milhão de hectares de densa floresta tropical.
Por gerações, essa parte da Amazônia inspirou poetas, escritores e artistas, que a descreveram não apenas como uma paisagem, mas como uma presença viva; uma presença que fala, ensina, responde e lembra. Esse entendimento ecoa no trabalho de Rita Huni Kuin, uma jovem artista visual do povo Huni Kuin do Acre – um povo indígena da Amazônia ocidental – que diz: “Minha professora é a floresta. Na floresta, quanto mais você busca, mais você descobre. Minha inspiração é a natureza e a medicina, nossas canções, nossa cultura, nossa língua, a força de nossos ancestrais.”
A reserva é um vasto mosaico de floresta e água, com imponentes castanheiras e sumaúmas elevando-se acima da copa das árvores, e um solo florestal repleto de plantas medicinais, fungos, insetos e animais ameaçados de extinção, essenciais para o equilíbrio ecológico e o bem-estar humano.
Mas o calor está mudando tudo. As folhas enrolam e ficam marrons no meio da manhã. As árvores frutíferas lutam para produzir e até mesmo as madeiras duras e resistentes da floresta mostram sinais de estresse. As estações não seguem mais o ciclo das estações que temos na memória. A riqueza que sustentou comunidades por gerações está se tornando frágil sob ciclos cada vez mais irregulares.
Raimundo “Raimundão” Mendes de Barros está sentado em sua casa, em seu seringal onde passou quase oito décadas trabalhando, manejando e defendendo a floresta. “Há dias em que quase morremos de calor”, diz ele. “Parece que estamos à beira de um incêndio.”
Extrativista, líder sindical e defensor da Amazônia ao longo de toda a vida, Raimundão também é primo de Chico Mendes, o ativista mundialmente conhecido cuja luta para proteger a floresta se transformou em um movimento que uniu trabalhadores florestais, povos indígenas e comunidades locais pela sobrevivência da Amazônia.
Raimundão Mendes observa um desenho em homenagem a seu primo, Chico Mendes, o lendário ativista que lutou pela preservação da floresta amazônica e pela defesa dos direitos das comunidades que nela vivem.
Raimundão Mendes observa um desenho em homenagem a seu primo, Chico Mendes, o lendário ativista que lutou pela preservação da floresta amazônica e pela defesa dos direitos das comunidades que nela vivem.
Em meados da década de 1980, Chico Mendes e o Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS) organizaram sindicatos locais, lideraram empates contra o desmatamento ilegal e a grilagem de terras (os protestos eram denominados "empates"porque os povos da floresta não queriam um protesto ou conflito; eles queriam empatar a destruição da floresta). Seus esforços culminaram na criação das reservas extrativistas, áreas protegidas onde as comunidades poderiam garantir direitos legais sobre a terra e colher produtos florestais de forma sustentável, garantindo tanto seu sustento quanto a conservação da Amazônia. Até hoje os habitantes da reserva continuam esse legado, colhendo castanhas-do-Brasil, açaí, pupunha e o látex da seringueira, para atender as demandas do mercado.
Embora seja um modelo de uso sustentável da floresta, a Reserva Extrativista Chico Mendes também enfrenta desafios contínuos decorrentes do desmatamento ilegal, avanço da pecuária, conflitos fundiários, mudanças climáticas e pressões para equilibrar a conservação com o sustento de suas comunidades. “Os seres humanos, em sua ganância e vaidade, estão destruindo a floresta – e, ao destruírem a floresta, estão destruindo a si mesmos e a todos os seres vivos”, diz Raimundão.
No entanto, o ativista de 80 anos não se concentra nos desafios, mas na confiança e no processo. “Se quisermos nos beneficiar disso”, diz Raimundão, referindo-se às iniciativas climáticas e aos programas de proteção florestal, “isso tem que acontecer por meio de seminários e fóruns de discussão comunitários – para que as pessoas possam reunir suas propostas. A partir daí, é muito menos provável que erros sejam cometidos”.
Raimundão Mendes e sua família vivem na Reserva Extrativista Chico Mendes, uma área protegida na Amazônia brasileira criada para proteger as florestas e apoiar as comunidades tradicionais que coletam borracha e outros produtos florestais de forma sustentável.
Raimundão Mendes e sua família vivem na Reserva Extrativista Chico Mendes, uma área protegida na Amazônia brasileira criada para proteger as florestas e apoiar as comunidades tradicionais que coletam borracha e outros produtos florestais de forma sustentável.
Ouvir antes de decidir
Em resposta a apelos como o de Raimundão, o governo do Acre lançou um dos processos de consulta mais inclusivos da história do estado para redesenhar como os benefícios do Programa ISA Carbono, que canaliza receitas de créditos de carbono para apoiar a conservação florestal e os meios de subsistência locais, seriam compartilhados.
Durante um ano, equipes do governo estadual viajaram pelas cinco regiões do Acre – Baixo Acre, Alto Acre, Purus, Tarauacá-Envira e Juruá – reunindo-se com comunidades em áreas protegidas, assentamentos rurais e terras indígenas. Não foram visitas simbólicas, mas espaços para debate real, escuta, discordância e tomada de decisão coletiva. As reuniões foram realizadas em comunidades remotas, muitas exigindo viagens terrestres, fluviais e áreas e semanas de coordenação. Nos locais onde o português não era a primeira língua, foi fornecida interpretação para as línguas indígenas, para que as pessoas pudessem falar e ouvir em suas próprias línguas. As pré-consultas permitiram que mulheres, idosos e jovens expressassem suas perspectivas antes que as assembleias regionais elegessem delegados para representá-los em nível estadual. Ao longo do processo, o SISA (Sistema de Incentivos a Serviços Ambientais) – estrutura estadual do Acre que vincula a conservação florestal ao desenvolvimento sustentável, ao financiamento de carbono e aos benefícios sociais para as comunidades – desempenhou um papel central. Durante as consultas, os membros da Comissão Estadual de Acompanhamento e Validação (CEVA) presentes e a ouvidoria do SISA coletaram sistematicamente feedback e preocupações.
Diversidade moldando o futuro das florestas
Mais importante ainda, as perspectivas de várias comunidades – de indígenas, agricultores familiares, extrativistas, ribeirinhos, professores e educadores, artistas, profissionais de saúde, líderes comunitários, mulheres e homens de todas as idades – ajudaram a moldar a governança florestal do Acre como ela é hoje. Por meio de suas experiências cotidianas, são as pessoas que vivem na floresta e dela dependem que influenciaram ativamente essas decisões.
Entre elas está Renilda Santana, conhecida como Dona Branca. Ela começa seu dia antes do nascer do sol, caminhando pela floresta, cuidando de suas plantações e colhendo produtos da floresta que sustentam sua família e comunidade. Nascida e criada na Reserva Extrativista Riozinho da Liberdade, no Acre, uma área protegida criada em 2005, ela testemunhou décadas de mudanças, dificuldades e lutas e sabe que proteger a floresta é inseparável do apoio aos meios de subsistência. Por meio de sua liderança na Associação Feminina Força da Mulher Rural do Rio Liberdade, ela garante que as perspectivas das mulheres, que muitas vezes carregam os fardos mais pesados nas comunidades rurais, sejam ouvidas na governança local e nas consultas do Programa ISA Carbono. “Precisamos ser claras sobre o que queremos e precisamos”, diz ela. “E como queremos gerenciar e trabalhar com a biodiversidade em nosso território. Isso é crucial. Nosso mercado é a floresta.”
Por meio de sua liderança na associação feminina rural local (Associação Feminina Força da Mulher Rural do Rio Liberdade), Done Branca (segunda da direita) garante que as mulheres, que muitas vezes carregam os fardos mais pesados nas comunidades rurais, tenham suas perspectivas incluídas na governança local e nas consultas comunitárias.
Por meio de sua liderança na associação feminina rural local (Associação Feminina Força da Mulher Rural do Rio Liberdade), Done Branca (segunda da direita) garante que as mulheres, que muitas vezes carregam os fardos mais pesados nas comunidades rurais, tenham suas perspectivas incluídas na governança local e nas consultas comunitárias.
Ensinando a próxima geração de guardiões da floresta
Na aldeia indígena de Nova Morada, a escola se abre diretamente para a floresta. As aulas dentro da escola são inseparáveis da vida fora dela. As crianças aprendem letras e números ao lado de danças, canções e histórias de seus ancestrais e dos rios, árvores e animais que compartilham seu lar.
Francisca Andréia de Melo Brandão Shanenawa, ou Kene Meni, leciona na primeira série, orientando seus alunos tanto na parte acadêmica quanto na responsabilidade de proteger a floresta. “Como professora, sinto que estou contribuindo para o futuro dessas crianças”, diz ela. “Ser guardiã da floresta é um papel fundamental. Nossa Mãe Terra, nossa Mãe Água, estão se preparando para sobreviver.” Ela reflete sobre a força das mulheres indígenas em cuidar de seu povo, manter viva sua ancestralidade e transmitir conhecimento às gerações futuras.
Ao lado dela, Edileuda Gomes de Araújo Shanenawa, ou Rani, dirige a escola, coordena a Organização dos Professores Indígenas do Acre (OPIAC) e trabalha como artesã com o grupo Purumã, um coletivo indígena que mantém vivos o artesanato tradicional e as práticas culturais para sustentar a identidade e os meios de subsistência locais. “A contribuição das mulheres indígenas em nosso território é essencial para a educação, a transferência do conhecimento ancestral e a manutenção da floresta.” Para Edileuda, a consulta afirma um direito fundamental: “O direito de escolher o que queremos em nossa realidade – o que vivemos todos os dias em nosso território, o que nossos filhos vão precisar, o que ainda está por vir. Existir é resistir.”
Do diálogo a um acordo histórico
Esse espírito participativo guiou o estado do Acre rumo a um acordo histórico. Em junho de 2025, mais de 150 delegados eleitos nas oficinas regionais ocorridas no estado se reuniram em Rio Branco para pactuar o novo acordo de repartição de benefícios de REDD+ do Programa ISA Carbono.
“Com transparência e respeito, concluímos as consultas nas cinco regionais do estado”, diz Jaksilande Araújo de Lima, presidente do Instituto de Mudanças Climáticas do Acre. O acordo histórico que se seguiu estabeleceu uma nova distribuição das receitas do carbono:
• 26% para povos extrativistas – comunidades que vivem na floresta e dependem da colheita sustentável de produtos florestais como castanhas-do-Brasil, borracha, frutas e óleos, sem desmatar a terra;
• 24% para pequenos e médios agricultores;
• 22% para os povos indígenas;
• 28% para o estado - implementar políticas públicas (fortalecimento institucional, fomento as cadeias produtivas agroflorestais, monitoramento e fiscalização ambiental).
“No fórum participativo, definimos as novas porcentagens para a repartição dos benefícios de REDD+. Ouvir aqueles que vivem e protegem a floresta é o primeiro passo para o êxito dessa política pública – e a confiança é o que torna a colaboração possível”, destacou Jaksilande Araújo de Lima.
Seguindo em frente
Para Raimundão, as consultas fazem parte de uma luta mais ampla. “Nossa geração iniciou um processo para transformar a realidade”, diz ele. “E conseguimos. Não parei quando era jovem, e não vou parar agora, na velhice. Continuamos avançando, construindo um futuro para nossos filhos, netos e para as próximas gerações.” Ele enfatiza que o bem-estar das futuras gerações depende da preservação das florestas em pé. “A mudança climática é responsabilidade de todos”, alerta. “O que acontece aqui afeta o mundo inteiro. Proteger a Amazônia é proteger o nosso planeta.” O processo de consulta do Acre mostra que a ação climática se fortalece quando começa onde Raimundão começou: na base e por meio do diálogo. A humanidade só pode sobreviver com a floresta. E a floresta só tem futuro se as pessoas forem ouvidas.
Eu sou a floresta
A floresta sou eu
Eu sou o rio que corre
E o pássaro que voa
Eu sou o vento que sopra
E a chuva que cai
Eu sou a vida que pulsa
E a morte que renasce
Eu sou a força da terra
E a sabedoria dos antigos
Eu sou a luta pelo futuro
E a memória do passado.
“Eu sou a floresta”, de Kamikia Kisêdjê, comunicador indígena e cineasta.
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Direitos autorais das fotos e vídeos: Instituto de Mudanças Climáticas e Regulação de Serviços Ambientais (IMC), Acre, Brasil Autora: Roxana Auhagen, UNDP Climate and Forests |
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